Os 30 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente e os horizontes possíveis a partir da Justiça Restaurativa: influxos abolicionistas em tempos de expansão punitiva a partir da extensão acadêmica
Ellen Rodrigues · 2021
Obra com licença aberta: você pode lê-la e baixá-la aqui.
Resumo
Reflexão sobre a justiça juvenil brasileira a trinta anos do Estatuto da Criança e do Adolescente. A autora revisa como se construiu historicamente o tratamento penal dos adolescentes, da colônia até hoje, e propõe a justiça restaurativa como horizonte possível mesmo em um clima de expansão punitiva, a partir de um olhar próximo ao abolicionismo. A parte empírica relata um projeto de extensão universitária da Universidade Federal de Juiz de Fora, realizado com a defensoria pública, que oferece práticas restaurativas a adolescentes. Útil para universidades que queiram montar projetos semelhantes.
Temas
Conteúdo
Índice e resumo por capítulo
Do que trata
O artigo reflete sobre a justiça juvenil no Brasil ao se completarem trinta anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/1990). A autora reconstrói como se formou, da colônia até o presente, uma política criminal que tratou a infância e a adolescência pobres como um problema social, e mostra a distância entre os princípios do Estatuto e a prática, com dados sobre o aumento das medidas de internação e semiliberdade. Em seguida apresenta a justiça restaurativa como uma possibilidade dentro da justiça juvenil, mesmo em um contexto de expansão punitiva, a partir de um olhar crítico próximo ao abolicionismo. A parte empírica relata o projeto de extensão «Além da Culpa: Justiça Restaurativa para adolescentes», da Universidade Federal de Juiz de Fora, desenvolvido junto com a Defensoria Pública. Dirige-se a quem trabalha no sistema de justiça juvenil e a universidades interessadas em articular extensão e práticas restaurativas.
Índice comentado
- 1. Introdução. Revisa os atos oficiais pelos trinta anos do Estatuto em 2020 e assinala a falta de metas concretas nos discursos das autoridades. Apresenta o percurso do artigo e seu enfoque teórico e empírico.
- 2. Infância e juventude no Brasil: aspectos históricos e político-criminais. Descreve o tratamento da infância desde a colônia, passando pelo discurso higienista, até o Código de Menores de 1927 e o modelo tutelar. Mostra como esse modelo serviu para separar socialmente crianças e adolescentes pobres e como entrou em crise até a Constituição de 1988.
- 3. O Estatuto da Criança e do Adolescente: aspectos conceituais, evolução no tempo e reflexos práticos. Explica a doutrina da proteção integral, as medidas socioeducativas e a remissão. Com dados do SINASE mostra o aumento sustentado da internação e da semiliberdade, a seletividade racial e os déficits educacionais nas unidades.
- 4. Breves considerações sobre a Justiça Restaurativa e sua inserção no âmbito do sistema de Justiça Juvenil pátrio. Situa a justiça restaurativa nas críticas criminológicas dos anos setenta e na normativa das Nações Unidas sobre justiça juvenil. Revisa seus conceitos, métodos e possíveis efeitos processuais, e as primeiras experiências brasileiras em Porto Alegre, São Caetano do Sul e Brasília.
- 5. Projeto de extensão acadêmica Além da Culpa: Justiça Restaurativa para adolescentes: características, percursos, desafios e horizontes. Apresenta o marco legal que habilita as práticas restaurativas, em especial a Lei do SINASE e a Resolução 225/2016 do CNJ. Inclui o perfil da rede socioeducativa de Juiz de Fora (5.1) e o início das atividades e as metodologias do projeto, com seus pré-círculos, círculos, pós-círculos e círculos de reinserção familiar (5.2).
- Considerações Finais. Sustenta que o Estatuto trouxe avanços, mas não conseguiu tornar efetivos os direitos que reconhece, diante de um punitivismo persistente. Propõe a justiça restaurativa como forma de responsabilização não retributiva e as universidades como aliadas para sua expansão.
- Referências Bibliográficas. Reúne a bibliografia, as normas e os levantamentos oficiais citados.
Ideias centrais
- Desde a colônia, a infância e a adolescência pobres foram construídas pelos agentes de poder como um problema social que devia ser controlado.
- O modelo tutelar do Código de Menores legitimou, sob um discurso protetor, a segregação institucional de crianças e adolescentes de famílias pobres.
- O Estatuto estabelece a proteção integral e a privação de liberdade como último recurso, mas a prática judicial conserva traços tutelares e aumenta as medidas de internação e semiliberdade.
- Os dados citados indicam que adolescentes e jovens são mais vítimas do que autores e autoras de crimes violentos, contra a percepção pública que impulsiona a redução da maioridade penal.
- A justiça restaurativa não tem um conceito fechado e é entendida aqui como um movimento que se opõe ao controle social punitivo e se baseia na dignidade humana.
- A Lei do SINASE e a Resolução 225/2016 do CNJ dão respaldo normativo às práticas restaurativas, mas são necessários apoio institucional e orçamento para sustentá-las.
- Em Juiz de Fora, o contato presencial nos pré-círculos mostrou-se fundamental, enquanto o funcionamento da central no prédio judicial e as dificuldades de deslocamento aparecem como obstáculos.
- Existe o risco de que a justiça restaurativa seja capturada pela lógica penal tradicional ou usada como expansão do poder punitivo em casos nos quais cabia a remissão.
Para que serve na prática
- Como uma universidade, junto com a defensoria pública, pode organizar um projeto de práticas restaurativas com adolescentes?
- Que etapas convém prever em um procedimento restaurativo durante a investigação de um ato infracional?
- Como os círculos restaurativos podem ser usados na etapa de cumprimento de uma medida socioeducativa para apoiar o retorno ao lar?
- Que obstáculos práticos, como o deslocamento ou o espaço físico, podem afetar a participação de adolescentes e famílias?
- Que cuidados tomar para que as práticas restaurativas não ampliem o controle penal sobre adolescentes?
Termos-chave
justiça juvenil, justiça restaurativa, Estatuto da Criança e do Adolescente, proteção integral, modelo tutelar, medidas socioeducativas, remissão, SINASE, círculos restaurativos, pré-círculos, círculos de reinserção familiar, extensão universitária, abolicionismo penal, expansão punitiva, seletividade penal
Usada no campus
Dados
- Autoria
- Rodrigues, Ellen
- Ano
- 2021
- Editora ou fonte
- Revista Direito e Práxis (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), vol. 12, n.º 1, pp. 642-686
- Tipo
- Artigo
- Idioma
- Português
- Jurisdição
- Brasil
- Licença
- CC BY
- DOI
- 10.1590/2179-8966/2020/57201